Autor: Dra Carla

  • Será que Déficits Emocionais Compartilhados Ligam a Personalidade Borderline e os Transtornos Alimentares?

    Será que Déficits Emocionais Compartilhados Ligam a Personalidade Borderline e os Transtornos Alimentares?

    O transtorno de personalidade borderline (TPB) e os transtornos alimentares (TAs) são companheiros frequentes. Cientistas há muito suspeitam que problemas semelhantes na regulação das emoções podem explicar por que eles aparecem juntos tão frequentemente.

    Para investigar isso, um grupo de pesquisadores decidiu ver se as dificuldades de regulação emocional poderiam prever os sintomas de TPB e TAs, tanto separados quanto juntos.

    O TPB, que é marcado por problemas na regulação das emoções, pensamentos confusos e relacionamentos complicados, afeta entre 0,7% e 3,5% da população. Notavelmente, o TPB frequentemente aparece junto com transtornos alimentares como anorexia nervosa (AN) e bulimia nervosa (BN). Estudos mostram que essa combinação é bem comum: 28% das pessoas com BN e 25% das pessoas com AN também têm TPB. Em hospitais, essa porcentagem sobe ainda mais, chegando a quase 64% dos pacientes com TPB.

    A desregulação emocional é um grande problema no TPB, levando as pessoas a usarem estratégias inadequadas, como comportamentos impulsivos, para tentar controlar suas emoções, o que acaba piorando o sofrimento.

    Neste estudo em particular, que envolveu 872 pacientes de clínicas ambulatoriais do projeto Rhode Island MIDAS, os pesquisadores analisaram diagnósticos de TPB e TAs, além da regulação emocional usando a Escala de Dificuldades na Regulação Emocional (DERS).

    Os resultados mostraram que os sintomas de TPB estavam ligados a todos os tipos de problemas de regulação emocional, enquanto os TAs mostraram relações diferentes. Por exemplo, a desregulação emocional estava fortemente ligada à BN, enquanto a impulsividade e a pontuação total de TPB estavam mais ligadas à AN em menor grau. E, embora as análises tenham mostrado que os déficits de regulação emocional previam o TPB, eles não conseguiam prever os TAs.

    Essas descobertas sugerem que a alimentação desordenada no TPB pode ser uma tentativa ruim de controlar as emoções. Isso destaca como é importante focar na regulação emocional no tratamento de TPB e TAs juntos. Pesquisas futuras devem investigar o impacto de outras condições psiquiátricas ao mesmo tempo e a eficácia dos tratamentos que focam na regulação emocional.

  • Você sabia que existe uma ligação entre TDAH/ Autismo e bioma intestinal?

    Você sabia que existe uma ligação entre TDAH/ Autismo e bioma intestinal?

    Um artigo sugeriu que pode haver uma conexão entre o nosso intestino e problemas como TDAH e autismo.

    Relevância: Pesquisadores da Universidade da Flórida e algumas universidades na Suécia descobriram uma relação entre o TDAH, autismo e as mudanças no microbioma intestinal durante a infância.

    Utilizando 20 anos de dados de mais de 16.000 crianças na Suécia, eles analisaram amostras de sangue do cordão umbilical e fezes para entender os fatores de risco desde cedo. As crianças com problemas de desenvolvimento tinham menos bactérias intestinais boas, o que estava relacionado ao uso de antibióticos para infecções de ouvido. O estudo também apontou alguns fatores ambientais, como o tabagismo dos pais e o estresse infantil, que prejudicam o microbioma.

    Pesquisadores ao redor do mundo tinham uma hipótese sobre a relação entre o TDAH, autismo e as bactérias intestinais, e parece que estavam no caminho certo. Os cientistas da Universidade da Flórida e duas universidades suecas descobriram uma conexão. Eles perceberam que as mudanças no microbioma intestinal nos primeiros anos das crianças podem influenciar o desenvolvimento de TDAH e autismo.

    Metodologia: Especialistas do Instituto de Ciências Alimentares e Agrícolas da UF junto com as Universidades de Linköping e Örebo na Suécia, conduziram o estudo com dados de 20 anos de mais de 16.000 crianças suecas, do projeto “Todos os Bebês no Sudeste da Suécia” (ABIS). Das crianças estudadas, quase 1.200 – ou seja, 7,28% – desenvolveram algum distúrbio do neurodesenvolvimento.

    Os pesquisadores analisaram os primeiros cinco anos de vida das crianças, focando nos fatores que poderiam afetar as bactérias intestinais ligadas ao desenvolvimento do sistema nervoso. Eles coletaram e compararam amostras de sangue do cordão umbilical ao nascer e fezes um ano depois. Além disso, os pais das crianças responderam a questionários sobre a função cognitiva, comportamento social e ambiente das crianças.

    Os resultados mostraram que as crianças que receberam diagnósticos de TDAH ou autismo tinham microbiomas intestinais diferentes. Faltavam bactérias como Akkermansia, Bifidobacterium, Ruminococcus e Faecalibacterium. Essas diferenças se mantiveram mesmo quando foram considerados outros fatores como dieta, vulnerabilidade psicossocial e exposições tóxicas.

    Outras Descobertas: A ligação com o uso de antibióticos para tratar infecções de ouvido foi surpreendente.

    “Nós não estamos dizendo que antibióticos são ruins por si só”, explicou Angelica Ahrens, autora principal do estudo. “Mas talvez o uso excessivo possa prejudicar o microbioma e, em alguns casos, o microbioma não se recupera tão rápido.”

    Os dados mostraram que crianças com três ou mais infecções de ouvido que precisaram de penicilina entre o nascimento e os 5 anos tinham quase quatro vezes mais chances de desenvolver distúrbio de fala, 3,27 vezes mais probabilidade de ter TDAH, e 2,44 vezes mais chances de ter deficiência intelectual.

    Além disso, crianças com múltiplas infecções entre 1 e 2,5 anos tinham 1,74 vezes mais chances de desenvolver autismo, 1,75 vezes mais chances de TDAH e 2,13 vezes mais chances de deficiência intelectual.

    O Que Está Por Trás Dessa Conexão? A resposta pode estar nas amostras de fezes.

    Em comparação com crianças que não tiveram múltiplas infecções de ouvido, aquelas com distúrbios de neurodesenvolvimento anos depois tinham mais Citrobacter (bactéria associada à inflamação) e menos Coprococcus (ligada à saúde mental).

    Os pesquisadores acreditam que a penicilina pode aumentar o Citrobacter e reduzir Coprococcus.

    Eles também consideraram fatores ambientais como pais fumantes e estresse infantil. O estudo mostrou que o tabagismo materno durante a gravidez aumentava a chance de autismo em 3,47 vezes.

    “Há um padrão claro de que o aumento de fatores de stress – seja emocional ou de exposição a ambientes ruins para a saúde – pode impactar o sistema imunológico e, subsequentemente, o microbioma,” disse Ahrens.


  • “Drunkorexia” ou “Bêbadorexia”: Que Distúrbio é Esse?

    “Drunkorexia” ou “Bêbadorexia”: Que Distúrbio é Esse?

    Saiba as causas e os efeitos de uma tendência que combina álcool e comportamentos alimentares desordenados.

    “Bêbadorexia”, uma junção das palavras “bêbado” e “anorexia” – ou “drunkorexia”, do inglês “drunk” – refere-se a uma preocupante tendência que combina abuso de álcool com comportamentos alimentares desordenados. Alguns pesquisadores acreditam que isso pode representar um novo transtorno alimentar, enquanto outros acham que não pode ser classificado apenas como transtorno alimentar ou transtorno por abuso de substâncias, mas sim como uma combinação de ambos.

    A pesquisa mostra que os comportamentos associados incluem jejum, exercícios em excesso, alto consumo de álcool e embriaguez. Embora ainda não seja um diagnóstico médico oficial, o termo destaca um padrão recorrente em que indivíduos restringem a ingestão de alimentos, praticam exercício físico excessivo ou purgam para “abrir espaço” ou compensar o elevado teor calórico do álcool que irão consumir.

    Esse comportamento é particularmente prevalente entre estudantes universitários e jovens adultos. Por exemplo, uma pesquisa com estudantes universitárias australianas mostrou que 79,1% das participantes relataram envolvimento em comportamento de drunkorexia.

    A embriaguez apresenta riscos significativos para a saúde, incluindo deficiências nutricionais, sistema imunológico enfraquecido, risco aumentado de envenenamento por álcool, danos a órgãos e problemas de saúde mental exacerbados, entre outros efeitos colaterais.

    Confira duas das principais motivações subjacentes à drunkorexia:

    1 – Um Impulso para a Magreza

    O medo de ganhar peso com as calorias do álcool é um dos principais fatores que promovem o comportamento de drunkorexia. Um estudo de 2020 descobriu que um maior desejo de magreza está associado a níveis mais elevados dessa síndrome.

    A busca pela magreza é amplamente influenciada por pressões sociais e culturais que idealizam tipos de corpo magros como símbolos de beleza, sucesso e saúde. Isso é perpetuado pela mídia, indústria da moda e redes sociais, que frequentemente glorificam e normalizam formas e tamanhos corporais irreais. Esta idealização generalizada pode levar à insatisfação corporal, comportamentos alimentares desordenados e uma busca incessante pela perda de peso, frequentemente à custa da saúde mental e física.

    A pesquisa mostra que, devido a essa ênfase na magreza, mulheres tendem a ter mais preocupações com o peso do que os homens. Também foi descoberto que mulheres que bebem muito procuram especialmente controlar o peso, tornando-as mais suscetíveis à drunkorexia.

    2 – Aliviando Emoções Desconfortáveis

    A drunkorexia pode muitas vezes resultar do consumo de álcool devido à pressão social e ao medo de ser excluído ou rejeitado. Beber em grandes quantidades é frequentemente normalizado e até glamourizado como meio de celebração, interação social e alívio do estresse, enquanto a abstinência pode ser estigmatizada.

    Esse comportamento pode se tornar um mecanismo para enfrentar estressores emocionais e psicológicos. Um estudo de 2020 descobriu que ansiedade, depressão e baixos níveis de regulação emocional estão associados a esse comportamento.

    “Adolescentes que experimentam tanto ansiedade elevada como desregulação emocional podem ser mais propensos a recorrer à drunkorexia para reduzir seus efeitos negativos desregulados na ausência de estratégias de autocontrole emocional mais adaptativas”, explicam os pesquisadores.

    Estudos também indicam que baixa autoestima relacionada ao corpo e à aparência pode levar a pensamentos autocríticos e emoções negativas intensas que alimentam a drunkorexia. Um estudo de 2022 refletiu essas descobertas, mostrando que ansiedade em torno da imagem corporal e ganho de peso pode incitar atitudes alimentares pouco saudáveis ligadas à drunkorexia. Esses comportamentos tornam-se uma “medida de segurança” que alivia a ansiedade ao garantir que o indivíduo não ganhe o peso que rejeita.

    Os pesquisadores também descobriram que a drunkorexia é utilizada como um meio de enfrentar emoções negativas, estresse percebido e depressão associados à autopercepção negativa. Indivíduos que lutam para regular essas emoções intensas e buscam uma sensação de controle são mais suscetíveis a se envolver nesses comportamentos.

    Além disso, um estudo de 2019 revelou que a drunkorexia está associada à falta de consciência das sensações corporais internas, como sinais de fome e saciedade. Os pesquisadores enfatizam a importância de estar sintonizado com os sinais emocionais e físicos do corpo e da mente, sem se sentir culpado ou ameaçado por essas necessidades, para ter uma relação mais saudável com tudo o que consome.

    Na verdade, um estudo de 2022 descobriu que a atenção plena pode ser uma ferramenta importante no combate à drunkorexia, pois está associada a níveis mais baixos de distúrbios alimentares e de uso de álcool. Os pesquisadores encontraram que níveis mais elevados de atenção plena ao momento presente e uma atitude sem julgamento para consigo mesmo estão associados a níveis mais baixos de drunkorexia.

    A síndrome merece séria atenção e intervenção. Abordá-la frequentemente requer orientação profissional, um ambiente de apoio, autorreflexão, maior consciência dos mecanismos de enfrentamento e se eles realmente estão servindo à pessoa, bem como um esforço consciente para neutralizar pensamentos críticos internos com autocompaixão. Curar a relação com a comida e o álcool é possível, sendo essencial para um relacionamento mais saudável consigo mesmo.